Ainda a propósito de água aberta
para o Marnoto e para o Cavaco]
Ode à idade
Não acredito na idade.
Todos os velhos
levam
nos olhos
uma criança.
E as crianças
às vezes nos observam
como profundos anciões.
Mediremos a vida
por metros ou quilómetros ou
meses?
Um tanto desde que se nasce?
Quanto
se deve andar
até que como todos
em vez de caminhá-la por cima
descansemos, debaixo da terra?
Ao homem, à mulher
que consumaram
acções, bondade, força,
cólera, amor, ternura,
aos que verdadeiramente
vivos
floresceram
e em sua natureza
amadureceram,
não acerquemos
a medida
do tempo
que talvez
seja outra coisa, um manto
mineral, uma ave
planetária, uma flor,
outra coisa talvez,
mas não uma medida.
Tempo, metal
ou pássaro, flor
de longa haste,
estende-te
ao longo dos homens,
floresce-os
e lava-os
com água aberta
ou com sol escondido.
Te proclamo
caminho
e não mortalha,
escada
pura
com degraus
de ar,
traje sinceramente
renovado
por primavera
longitudinais.
Agora.
Tempo, te enrolo,
te deposito em minha
caixa silvestre
e vou pescar
com teu longo fio
os peixes da aurora!
Pablo Neruda
Comentários:
Parabéns pela ideia. Lamento não poder dizer o mesmo da tradução, mas vou-me habituando às transposições de castelhano para... portulhano. Para não ir mais longe, não "levamos" crianças dentro de nós, como os nossos hermanos: "trazemos". Sei que é só um pormenor, mas qualquer pequena bala no Neruda é um assassínio indesculpável...
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